terça-feira, 17 de março de 2009

de Carlos Drummond de Andrade


Carlos Drummond de Andrade


Esta semana voltando do trabalho para casa, peguei o metrô na Sé sentido Barra Funda/ SP, sentei e abri um livro que adoro, "CORPO", de Carlos Drummond de Andrade. Estava entretida na leitura, reparei por um momento que um rapaz sentou-se ao meu lado e ficou observando o livro. Normal, é comum encontrar curiosos que tentam ver a capa do livro que estamos lendo, eu faço parte deste grupo! ;)

Senti um cutucão no meu braço, olhei para o lado, e esse rapaz disse:
- Me desculpa incomodar, mas reparei que está lendo Drummond, eu adoro todos os poemas dele.
- Pois é, são muito bons mesmo, eu adoro! - E voltei para minha leitura.
- Olha, eu sei que nem conheço você, mas eu gostaria de te sugerir uma leitura, pode ser?
- Claro! Respondi.
- Leia "o poema das 7 faces". Duvido que não goste.
- Eu adoro este poema, difícil é conhecer as obras de Drummond e não conhecer "o poema das 7faces"!

E assim se desenvou uma conversa de alguns minutos sobre Drummond. Achei tudo tão inspirador que resolvi dedicar um post a este poema que foi assunto entre mim e o rapaz que não perguntei o nome. E também um poema lindo do livro que eu lia no metrô. "Flor Experiente".



Poema de sete faces
(Carlos Drummond de Andrade)

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas e amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


O poema do livro "CORPO"




Flor Experiente

Uma flor matizada
entreabre-se em meus dedos.
Já sou terra estrumada
- é um de meus segredos.

Careceu vida lenta
e mais que lenta, peca,
para a cor que ornamenta
esta epiderme seca.

Assino-me no cálice
de estrias fraternais
O pensamento cale-se
É jardim, nada mais.

(do livro Corpo, de Carlos Drummond de Andrade)