segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Perfis nas redes sociais atraem empresários – Parte II – A entrevista

Entrevista completa com a advogada especialista em Direito Digital e Direito Criminal, Gisele Truzzi. (Caso tenha interesse em ver, uma das matérias publicadas com o tema e com informações da especialista, clique aqui.)


 Foto de divulgação - R7

Joyce Barreto: Segundo dados da empresa de métricas online COMSCORE, o mercado de redes sociais da América Latina teve um aumento no índice de engajamento do 88% no último ano. E agora esses sites de relacionamento viraram ferramentas de empresas para encontrar profissionais para preencher vagas em aberto. Como é feito a análise profissional através deste meio?
Gisele Truzzi: Cada rede social tem suas peculiaridades, mas o objetivo é o mesmo: conectar pessoas, proporcionar interatividade, publicação de conteúdos e divulgação de informação. E é exatamente neste ponto relacionado à publicação e divulgação de informações que os profissionais devem ficar atentos. O perfil de um candidato em uma rede social pode dizer muito mais sobre ele do que seu próprio currículo. Isso porque se ele não tiver cautela na publicação de fotos e mensagens, poderão existir imagens comprometedoras, comentários indecorosos a algum colega, publicação ou disseminação de algum material que o desabone na esfera profissional. As empresas, além de conferirem a veracidade das informações contidas em um currículo, também pesquisam pelo candidato na Internet: procuram pelo seu nome e e-mail nos principais buscadores, vasculham as redes sociais, fóruns de discussões da Web, sites de vídeos, blogs, fotoblogs etc. A fim de verificar se de fato aquela pessoa aparenta quem diz ser. Pois muitos indivíduos possuem um currículo profissional impecável, porém o “currículo virtual” que a Internet lhe confere acaba sendo negativo, manchando sua reputação e imagem. E é claro que a empresa logo descartará este candidato que possui comportamento na Web oposto ao que aparenta no currículo. A Internet deixa rastros sobre a vida de uma pessoa, que muitas vezes são extremamente difíceis de serem apagados. E essa reputação negativa poderá atrapalhar sua vida profissional e pessoal. Por isso é muito importante que cada um tenha cautela e bom senso na publicação de materiais na Internet, para não prejudicar a si próprio e a terceiros.

J.B.: É possível definir como deve ser o perfil de um internauta que busca novas oportunidades no mercado de trabalho? Faça considerações relevantes.
G.T.: Tanto o candidato a uma vaga, quanto o profissional já inserido no mercado devem ter cautela e bom senso ao participarem de redes sociais, para não prejudicarem sua imagem no meio corporativo (e também a reputação da empresa para a qual trabalham).
- É importante verificar a configuração de privacidade da rede social da qual se participa e dividir os contatos em listas diferentes, criando-se uma listagem somente para os contatos profissionais, e outra para os amigos mais próximos e familiares. Assim, o usuário evita que o futuro empregador ou colegas do meio corporativo vejam as publicações mais direcionadas aos amigos e familiares.
- Não deixe todo o seu álbum de fotos aberto ao público em geral. Mantenha aberto um álbum relacionado às imagens que fazem parte de seu portfólio, de seu currículo profissional. Deixe as fotos de festas com amigos ou familiares restritas somente a estas pessoas. E tenha cuidado ao publicar qualquer tipo de imagem, seja de si próprio ou de terceiros. Para publicar fotos de terceiros, é necessário que este tenha autorizado.
- Tenha bom senso ao divulgar qualquer tipo de conteúdo: o que não pode ser visto, não deve ser publicado.
- Não publique conteúdos de terceiros sem autorização. E quando o fizer, mencione os devidos créditos. Tome Cuidado com fotos em situações constrangedoras, você poderá ter problemas no futuro.
- Mantenha seu perfil “clean” e organizado. Deixe visível somente as informações essenciais sobre sua vida profissional e uma forma de contato. “Menos é mais”. Utilize um e-mail específico para assuntos profissionais. Não adicione diversos aplicativos e jogos ao seu perfil, seu futuro empregador poderá pensar que você passa muito mais tempo online do que deveria.
- Tenha em mente que tudo o que você publica poderá ser visto pelo seu futuro empregador, ou pelo seu chefe, colegas de trabalho, familiares e amigos. Mesmo fazendo uso das listas de privacidade, saiba que nada é 100% seguro.
- Seja coerente com as informações publicadas, não gere um “currículo virtual” que anule seu histórico profissional. Seja ético.
- Cuidado ao utilizar aplicativos de geolocalização, e dizer onde está em determinado momento. Pode ser interessante para encontrar seus amigos, mas isso também é um risco à sua segurança: quantas pessoas indesejáveis ou potenciais criminosos também não saberão a sua localização? Além disso, se naquele dia, você deveria estar de licença médica e publicar uma foto sua na praia, isso poderá acarretar sérios problemas no seu trabalho. Há profissionais que chegaram a ser demitidos por publicações indevidas que fizeram em seus perfis nas redes sociais.
- Seus amigos virtuais nem sempre são seus amigos reais. Tenha em mente que aqueles 600 “amigos” que você possui em uma rede social são na realidade, “conexões”.
- Se beber, não tweet. Não se conecte a Internet se você abusou um pouquinho do álcool, pois na 2ª feira você poderá se arrepender do que publicou na noite de sábado, e aí será impossível reverter os danos disso.


J.B.: Entre as redes sociais mais comuns, apenas para relacionamentos e trocas de informações, existem as próprias para cadastros de perfis profissionais. Como deve ser desenvolvido o perfil de apresentação do candidato nessas redes?
GT: É importante lembrar que todos os perfis nas redes sociais devem ser criados com a mesma cautela e bom senso, pois seu empregador poderá não somente procurá-lo, por exemplo, no “Linkedin” que é próprio para isso, mas também em outros sites. Não deverá haver divergência de informação. Portanto, os cuidados na criação de um perfil no Linkedin devem ser os mesmos observados em outras redes sociais, e ainda deve-se ter atenção redobrada, pois o foco neste site é o lado profissional. O perfil em uma rede social profissional deverá ser bem objetivo, contendo as experiências profissionais mais relevantes do indivíduo. Estas deverão ser elencadas em ordem cronológica, com nome da empresa, período de atuação, cargo ocupado e breve descrição das atividades. Se o candidato possuir um site ou blog profissional, deverá adicioná-lo também, pois este servirá como mais uma forma de divulgação de seu trabalho. Porém, deve-se atentar à publicação de conteúdos estritamente profissionais neste site ou blog. O profissional também poderá adicionar uma versão mais completa e detalhada de seu currículo, anexando-o ao perfil, através de uma ferramenta que o próprio “Linkedin” fornece. Assim, se o futuro empregador quiser maiores detalhes sobre aquele candidato, poderá fazer o download do histórico profissional completo. A foto do perfil deverá ser nos moldes corporativos: uma imagem mais formal, com traje adequado à profissão, focando-se o rosto do profissional. Não é recomendado colocar fotos em que se aparece juntamente com outras pessoas, em festas, onde se recorta o rosto e percebe-se que a situação ali retratada era um evento social.

J.B.: Quais as informações e conteúdos que pode desqualificar o candidato?
G.T.: O que poderá comprometer o candidato a uma vaga ou mesmo o profissional já no mercado, são algumas “gafes” cometidas através das redes sociais e da Internet como um todo:
- Informações inverídicas sobre o histórico profissional, encontradas na Internet, em desacordo com o currículo apresentado;
- Nome e/ou e-mail encontrado em alguns fóruns de discussão da Web que podem desabonar o candidato (ex: comunidade virtual que divulga dados pessoais coletados para práticas de fraudes eletrônicas).
- Nome, e-mail ou imagem do profissional relacionado a fotos, vídeos ou qualquer tipo de material constrangedor, obsceno, íntimo;
- Comentários difamatórios, ofensivos ou preconceituosos efetuados pelo próprio profissional em redes sociais;
- Comentários ou publicações de cunho ilegal efetuadas pelo próprio profissional;
- Conteúdo relacionado à violação de direitos autorais (plágio, pirataria), publicado diretamente pelo profissional;
- Fotos do próprio indivíduo que exponham demais sua vida íntima, pessoal ou status social;
- Comentários negativos à empresa, ao chefe ou colegas de trabalho, publicados nas redes sociais;
- Participação em comunidades tais como “eu odeio a empresa x”, “eu odeio meu chefe”, “eu chego atrasado” etc.
- Divulgação de informações confidenciais da empresa através da Internet.

J.B.: Com que frequência as empresas buscam profissionais através dos sites de relacionamento?
G.T: É cada vez mais freqüente a busca ou verificação dos candidatos através das redes sociais. Desconheço se ainda existe alguma empresa atual que depois de receber o currículo de um candidato não faça uma pesquisa sobre ele nas redes sociais.


J.B: Todo este processo facilita o lado da empresa na hora do recrutamento?
G.T: Muito, a participação em redes sociais, quando feita da forma correta, auxilia a empresa a ter maiores informações sobre aquele candidato e seu comportamento, e poderá transmitir maior confiança no momento da contratação. Isto também mostra que o profissional é atualizado, está “antenado” às novas tecnologias e sabe utilizar as ferramentas tecnológicas de modo ético e seguro.



 Gisele Truzzi é advogada especialista em Direito Digital e Direito Criminal, Acesse: www.truzzi.com.br
gisele@truzzi.com.br