quarta-feira, 18 de abril de 2012

Filhos, eu?

Revista Lola Magazine (Edição 12 – Setembro 2011) Editoria – Comportamento


Filhos, eu?
Uma mulher não pode ser completa e realizada se não perpetuar a espécie, certo? NEM A PAU! Para algumas, conseguir reconhecer que simplesmente não têm vontade de ser mães é que é a verdadeira plenitude

Por LUCIANA ACKERMANN


Ser ou não ser mãe? Não faz muito tempo, essa pergunta dificilmente se colocava para as mulheres, acostumadas com a ideia de que ter filhos era o caminho para que elas fossem completas, realizadas, bem encaminhadas na missão suprema da feminilidade. Mesmo hoje, quando está bem claro que a realização pode ser encontrada trilhando outros caminhos, essa não é uma questão que se faça de maneira tão hamletiana. Na maioria dos casos, não há nem mesmo um timing exato, não existe o momento do clique em que uma mulher decide: “Ah, quer saber, não quero ter crianças”. A decisão, no geral, aparece aos poucos e de forma inconsciente num processo em que atuam todos os complicados vetores do desejo. E, quando ela surge, costuma vir recheada de um monte de explicações, que podem passar, por exemplo, por diferentes medos – de não ser uma boa mãe, de perder a liberdade, de que a criança atrapalhe a vida amorosa e a profissional... E há quem, simplesmente, vai logo admitindo: nunca teve vontade. Sem dramas, sem alardes, sem teatralidade.

Autora do livro “Sem filhos: A mulher singular no plural”, a psicanalista Luci Mansur diz que ainda estamos, culturalmente, sob o efeito da supervalorização da maternidade que explodiu no século 19, quando ela virou sinônimo de plenitude. Mas isso vai mudando. Com a revolução provocada pela pílula anticoncepcional, a procriação começou a sair da esfera obrigatória para entrar no campo da liberdade de escolha. “Desfez-se o mito do instinto materno”, diz ela.

“O desejo de ter filhos não é nem constante nem universal. E, já que existe escolha, existe diversidade de opiniões. Não é mais possível falar de instinto ou de desejo universal”, diz a filósofa francesa Elisabeth Badinter, autora de “O Conflito, A Mulher e a Mãe”. Não que seja fácil – a responsabilidade, em qualquer caso, é grande. “A partir do momento em que você decide, fica a fantasia de que ser bom, e a possibilidade de frustração é muito maior”, afirma a psicóloga Lidia Aratangy.

A seguir, cinco mulheres contam os diferentes caminhos que percorreram até decidir que seriam mais felizes sem filhos. Em todas as histórias de que o que torna uma mulher realizada está ligado às coisas que ela encontra para dar sentido à sua vida. Aí, é o velho cada um, cada um. Simples assim...

DEPOIMENTOS

“NUNCA SENTI AQUELE DESEJO ARREBATADOR”
Mila Moreira, 62 anos, atriz



“Resolvi não ter filhos por várias razões, uma delas é que nunca senti firmeza em minhas relações. No meu primeiro casamento, eu quis, cheguei a pensar que estava grávida, comprei algumas roupinhas, mas era alarme falso – confesso que fiquei na maior alegria quando soube. Eu perdi meu pai muito cedo, comecei a trabalhar bem nova, fui arrimo de família e não me via com um filho. Sou taurina, não sei levar a vida na flauta, qualquer coisinha que meu cachorro tem já fico preocupadíssima, imagine com um filho? Nunca ficaria tranquila.

Também não senti aquele desejo arrebatador de ser mãe, de ter uma continuidade no mundo. É uma decisão difícil, complicada, é preciso dedicar todo o seu tempo àquela criatura, é full time. Vejo na minha escolha algo de egoísmo, nunca me achei disponível dessa forma, mas posso dizer que curti e supri meu lado maternal com meus sobrinhos e enteados. Três delas eu considero como filhas mesmo. Agora, sou tia-avó e estou adorando.

Sempre pensei que, se um dia a vontade de ser mãe apertasse, eu poderia adotar. Acho bem legal poder dar um lar e uma série de oportunidades a alguém desprovido de tudo isso. Mulher é um bicho estranho. Quando pego um bebê no colo, acho gostoso, não quero largar, fico encantada com aquela fofurinha, mas minha vida seria outra coisa se tivesse escolhido ter. Minha mãe dizia que ter filhos era uma loucura e que, se pudesse escolher, não teria, e eu entendia a opinião dela. Não fui cobrada por isso, não. As cobranças eram para eu casar (risos). O que fiz várias vezes na minha vida!”


“PENSEI. PENSEI, PENSEI, ATÉ ACHAR MOTIVOS PARA NÃO TER”
Vanessa Lampert, 31 anos, escritora

“Sempre achei que queria ser mãe. Gosto de crianças e elas gostam de mim. Meu plano era engravidar logo depois de me casar. Já meu marido achava que deveríamos esperar uns três anos. Conversamos e negociamos que aguentaríamos dois anos. Nesse período, percebi que eu não tinha noção da responsabilidade de criar um filho. Pensei sobre tudo o que envolve a formação do ser humano. Vi que, por mais que os pais tenham valores e princípios, que se dediquem aos filhos, chega uma hora em que perdem o controle e se veem diante de alguém que não tem nada a ver com eles. Não existem garantias, e eu vi isso na minha família. Entre 2000 e 2002, ajudei a cuidar dos filhos das minhas duas irmãs e dos meus dois irmãos. Era o máximo ficar com eles, trocar fraldas, brincar, mas chegava um momento em que eu me cansava e ficava aflita para colocar a criança nos braços dos pais. Sem ser pessimista, também analisei se estaria preparada para lidar com um filho com problemas, que dependesse totalmente de mim. Além de tudo isso, também não gosto da ideia de deixar os filhos com empregadas, o que possivelmente acontecia já que nós dois trabalhamos fora.

Enfim, pensei em tudo. Muita gente tem filhos por egoísmo ou para dar uma satisfação à sociedade, mas não acho justo trazer uma pessoa a este mundo tão complicado sem refletir seriamente a respeito. Passei a compreender que o meu marido já tinha noção da responsabilidade de ter um filho. Acabamos desistindo de nos tornar pais. Foi uma escolha com convicção, consciente. Engraçado que, antes de ter essa clareza, eu inconsciente, me esquecia de tomar a pílula. Mas, desde que decidimos não ter filhos, meus problemas de memória passaram. Muita gente acha que sou diferente, nem todo mundo quer mexer em um conceito tão arraigado. Dizem que o amor entre mãe e filho é completamente diferente, mas eu não sinto falta desse amor, não há lacunas! As pessoas estranham nossa decisão, há até quem tente me convencer a mudar de ideia. Às vezes, esse tipo de conversa enche até um pouco o saco. Mas, depois de tudo que já pensei, não existe a menor possibilidade. Ainda tem gente honesta no mundo... Alguns casais admitem que, se pudessem voltar ao tempo, também não teriam filhos. A solução é eu assumir que penso diferente e, por isso, às vezes sou meio alienígena.”


“EU SIMPLESMENTE NÃO TENHO ESSE SONHO”
Flavia pirola, 36 anos, empresária

“Achava que seria mãe de dois meninos, casei há nove anos e fui adiando a maternidade até sentir aquele desejo de ser mãe, mas isso não aconteceu. Não tenho esse sonho. Penso na enorme responsabilidade de formar uma pessoa de boa índole, humilde, com valores legais. Também acho meio deprimente pensar que você se dedica e cuida daquele ser para depois ele ir embora. A ideia de que o filho pertence ao mundo é cruel.

Trabalho desde meus 19 anos na empresa do meu avô, que era o patriarca da família. Quando ele morreu, assumi o lugar dele. Sou responsável por 64 funcionários, já tenho que dar conta de muita coisa... Além disso, há o agravante de que eu moro em São Paulo e meu marido mora em Poços de Caldas. Nós nos revezamos e nos vemos todos os fins de semana. Realmente, um filho não faz falta em nossas vidas. Vivemos num clima de namoro, uma relação de cumplicidade, fazemos planos de viagens. Temos três cachorros.

Notei que minhas amigas também não têm esse desejo da maternidade. As cobranças sociais às vezes até acontecem, mas não dou a menor atenção, ou devolvo a pergunta: “Posso deixar aqui? você ensina o que é certo e errado?”. Acho que tudo o que foi acontecendo em nossas vidas foi nos levando a desistir de ter filhos”.


“EU ADORO A LIBERDADE DE NÃO TER FILHOS”
Vera Lucia Hiar, 47 anos, dentista

“Nunca me vi com esse instinto materno. Tem mulheres que nascem e crescem com esse desejo, mas, para mim, não foi algo latente. Sempre tive uma série de outras prioridades, especialmente os estudos e a carreira. Na época da faculdade, fiz terapia – e um dos assuntos recorrentes das sessões era essa minha falta de desejo de ser mãe. Cheguei a me sentir mal e estranha por isso. Talvez eu seja um pouco egoísta por não querer me dedicar integralmente a uma criança, por não me dispor a dividir meu tempo. Um filho é muita responsabilidade! Trabalho mais de 12 horas por dia e teria que mudar radicalmente meu estilo de vida.

Coincidiu de eu me casar com um homem que também não queria ser pai. Nossa dedicação é um para o outro, e a relação é ótima. Nós viajamos, curtimos a vida a dois. Temos mais liberdade para dormir até mais tarde, não cozinho quando não estou a fim. Se tivesse um filho, seria aquela dedicação ferrenha, de unhas e dentes. Eu ficaria maluca. Durante um bom tempo, fiz odontopediatria, o que proporcionou o convívio com crianças e, de certa forma, preencheu esse possível lado maternal e me bastou. Mais tarde, acabei cuidando dos meus familiares mais velhos."


“NÃO GOSTO DE CRIANÇAS, NÃO TENHO APEGO”
Carla Machado, 35 anos, administradora

“Desde adolescente, eu nunca tive vontade de ser mãe, ouvia as meninas da minha idade falando sobre esse desejo – e não me identificava em nada com aquelas conversas. Não gosto de crianças, não tenho apego! Na verdade, eu quero distância delas. Uma das afinidades entre mim e meu marido foi o fato de ele não querer ser pai. Nós não tivemos contato com crianças em nossas famílias e criamos um modelo de vida no qual não cabem filhos, temos muito trabalho, muitos compromissos. Claro que nós saberíamos cuidar, mas, do jeito que é nossa dinâmica, não da nem para a gente ter um cachorro! Puxa, já não somos sete bilhões, para que vou colocar mais uma pessoa neste planeta ambientalmente destruído? Não dizem que em 20 anos não haverá água em São Paulo? Então, é até uma decisão consciente... Além disso, é caro sustentar um filho, dar boa educação, bons colégios. Isso tudo até a universidade... já li que os gastos desde o nascimento até o término da graduação chegam a 1 milhão de reais. Logo que nos casamos, há seis anos, meus sogros chegaram a fazer uma pressão, mas expliquei o que penso. Já pensei que eles teriam de adotar um neto. As cobranças não duraram muito. Tenho até algumas técnicas para me livrar das pressões. Quando alguém diz que sou egoísta por não ser mãe, respondo: “Egoísta é quem, para satisfazer um desejo próprio, coloca mais um ser neste mundo cruel (risos)”, ou corto logo: “Deus me livre, detesto crianças...”. As pessoas ficam horrorizadas.


“MUITOS CASAIS TORNAM-SE PAIS CONTRA A VONTADE, APENAS PARA NÃO FICAR ISOLADOS”

O professor de inglês canadense Jerry Steinberg fundou, em 1984, o No Kidding, uma comunidade virtual para reunir casais solteiros sem filhos, para combater o que classifica como preconceito contra quem não tem. Quase 30 anos depois, ele continua firme em sua opinião.

LOLA: Existe um mito em torno da maternidade?
Jerry Steinberg: não posso dizer que o instinto maternal é um mito, mas muitas fêmeas, incluindo as humanas, não o têm. Achar que uma mulher só é completa se tiver filhos é um pensamento raso, limitado, tacanho. É um insulto a todas elas...

Você defende esse ponto de vista desde 1984. Não houve nenhuma mudança nesse período?
Sim, houve uma mudança. Nos Estados Unidos, na Escandinávia e no Canadá, 10% dos casais não tinham filhos em 1984. Hoje, esse número saltou 20%, e continua crescento. A sociedade está aceitando mais o fato de que algumas pessoas não querem ter filhos por diversas razões – financeiras, psicológicas, sociais, de carreira e ambientais. Nem todo mundo deve ter filhos, a superpopulação é um dos maiores problemas em todos os cantos do mundo, e ter mais crianças aumenta os problemas.

Mas a cobrança ainda é grande?
Sim, acontece desde quando as mulheres são bem pequenas e vai até quando passam da idade de engravidar. Quando crianças, elas são presenteadas com bonecas de plástico, empurram os carrinhos, dão mamadeira, comidinhas, trocam as fraudas... Eu as chamo de mães em formação. Não gostaria de ter que desistir da carreira que escolhi, por qualquer período de tempo, para ficar em casa cuidando de crianças. Sinto pena das mulheres inteligentes e ambiciosas que tiveram que viver desse modo no passado.

O que acontece com os casais sem filhos?
Muitas vezes, eles perdem os amigos que têm filhos, sentem-se isolados e com necessidade de fazer novas amizades. Sentem-se como os únicos no mundo nessa situação.

Você acredita que muitos casais cederam à pressão social e tiveram filhos?
Sim, alguns casais se tornam pais contra a vontade. São frequentes os comentários: “Se você me ama, vai ter filhos comigo”; “Você seria um pai maravilhoso”... Um pai relutante, provavelmente, não será bom pai. Sou professor há 43 anos, continuo amando dar aulas, meus alunos parecem gostar, sempre tive avaliações positivas. Se eu tivesse sido forçado a me tornar um professor, acabaria odiando . E que tipo de professor eu seria?


2 Opiniões:

Guru do Metal disse...

ter filhos não é bom mesmo

http://rocknrollpost.blogspot.com.br/

HONORATO, Sandro disse...

Boa tarde :)
Será que ter filhos é tão ruim assim?
Ah eu quero ter pelo menos um..ensinar a ele o que aprendi,mostrar no que errei...

Gostei do teu blog,estou seguindo
Beijos e cuide-se :)

RIMAS DO PRETO