Na 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty - FLIP,
uma das palavras que vi foi "O avesso da pátria" com Dany Laferrière
e Zoé Valdez. Dedico este post com uma matéria publicada no Estadão no dia
06/07/2012. Sobre Dany Laferrière falando sobre sua aversão ao
nacionalismo. Espero que gostem
| Dany Laferrière na 10ª edição da FLIP Foto por Joyce Barreto Chicon |
Dany Laferrière fala sobre
sua aversão ao nacionalismo e lança livro na Flip
O haitiano participa da mesa
'O Avesso da Pátria' em Paraty e lança
o livro 'Como Fazer Amor com Um Negro Sem se Cansar'
Com 27 anos de atraso, o
livro Como Fazer Amor com Um Negro Sem se Cansar, do haitiano Dany Laferrière,
chega ao Brasil no momento em que seu autor participa da 10.ª Festa Literária
Internacional de Paraty (Flip). Laferrière concedeu entrevista ao Sabático
lembrando que, ao escrever o livro, não tinha só em mente autores ligados à
geração beat, sejam eles os protagonistas ou coadjuvantes do movimento
literário liderado por Jack Kerouac, cujo mais famoso título, On The Road, foi
filmado pelo cineasta brasileiro Walter Salles. A retomada dos ideais da beat
generation mais de meio século após sua eclosão pode ser entendida como uma
resposta à padronização cultural ditada pela nova ordem do mundo globalizado,
que trocou a liberdade pela segurança. Laferrière é o oposto dessa cultura:
ainda jovem, lutou contra a ditadura de Jean-Claude Duvalier, mais conhecido
como Baby Doc. O pai já vivia no exílio e o filho não teve escolha além de
seguir seus passos, em 1976, quando um amigo jornalista, Gaston Raymond, foi assassinado
pelos Tontons Macoute, grupo paramilitar mantido pelo regime de Duvalier.
Morando em Montreal,
Laferrière veio a Flip para conversar, neste sábado, 7, às 17h15, com a
escritora cubana Zoe Valdés justamente sobre o que significa ser nacionalista (palavra
que odeia) num mundo que se pretende sem fronteiras. Na terça-feira, dia 10, já
encerrada a Flip, ele discute um tema ainda mais interessante, A Literatura e a
Reinvenção do Eu, às 20 h, no Teatro Eva Herz (Livraria Cultura da Avenida
Paulista).
Reinventar o eu é com ele
mesmo. Após deixar o Haiti, Laferrière trabalhou como faxineiro de aeroporto e
em uma fábrica de tapetes, onde vivia cortando as mãos e os braços, até que os
colegas o ajudaram a arrumar um lugar melhor e seguro para que pudesse escrever
seu primeiro romance. Foi assim que surgiu Como Fazer Amor com Um Negro Sem se
Cansar. Transformado por Jacques Benoit no polêmico filme (homônimo) que
provocou certo barulho em seu lançamento americano, o livro, apesar de ter como
principal personagem um aspirante a escritor, não é autobiográfico. No entanto,
muitas das opiniões sobre relações inter-raciais do protagonista são divididas
pelo autor. No livro, o escritor fictício divide com seu amigo preguiçoso um
minúsculo apartamento em Montreal. Velho é como o chama seu amigo Buba, que
passa os dias dormindo, lendo o Corão ou ouvindo jazz. O objeto mais precioso
de sua propriedade é uma máquina de escrever Remington, que ele comprou de
segunda mão e julga ter pertencido a um ícone da literatura negra (teria sido
Chester Himes?).
O livro é repleto de citações
a autores que Laferrière ama: além de Himes, Baldwin, Henry Miller, Bukowski. A
lista dos favoritos é imensa e inclui Mishima, Joyce Carol Oates, William
Styron e, claro, Salinger. Qual máquina de escrever usada ele compraria?
Provavelmente aquela que pertenceu a Bukowski. "Ele e Borges são meus
autores preferidos."
Jornalista no Haiti,
Leferrière escrevia para um suplemento cultural quando teve de deixar seu país,
na Olimpíada de 1976. Fixando-se inicialmente nos EUA, onde nasceu a primeira
das suas três filhas, ele tentou sobreviver lá por 12 anos como escritor, mas
acabou voltando ao Canadá em 2002.
Apesar de ter escrito seu
primeiro livro sobre as aventuras sexuais de um negro com loiras de apelidos
engraçados, Laferrière garante que jamais se sentiu parte de uma minoria. Nem
gosta que alguém o chame de escritor haitiano. "Sou escritor e sou
haitiano, mas isso não significa que tenha de defender uma causa." No
Canadá, diz, a cor da pele não importa muito, embora seu narrador discorde
dele. No começo dos anos 1980, época da ação de Como Fazer Amor..., o narrador
diz que a "grande era negra" já passou. Ao negro, conclui, só resta
se reinventar, "ejacular petróleo". Se você quer um resumo da guerra
nuclear, continua o protagonista, "ponha um negro e uma branca na mesma
cama". O ódio no ato sexual "é mais eficaz do que o amor".
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| Laferrière lutou contra a ditadura de Jean-Claude Duvalier em seu país e é oposto aos "beats" Por Estadão de São Paulo |
É certo que, por aquela
época, Laferrière já havia lido James Baldwin, o que pode ser atestado por
algumas das ideias expressas no romance inaugural do haitiano, que traz ecos de
Da Próxima Vez, o Fogo, manifesto de afirmação racial escrito em 1963 pelo
autor de Giovanni (livro gay de amores inter-raciais). "Baldwin é preciso,
assertivo, mas também lírico", diz Laferrière, definindo o americano como
um produto de sua época e "um tanto obcecado por essa questão de
raça". Hoje, conclui, "o mundo não é tão regulado por conflitos
raciais". Não que eles inexistam. "Só que essa não é a preocupação
central do século 21".
Já o recrudescimento de
movimentos nacionalistas preocupa Laferrière. "A vida não é uma questão de
nacionalismo, mas de respeito ao próximo." Foi isso que motivou o escritor
a produzir L’Odeur du Café, registro autobiográfico proustiano em que a madeleine
de Laferrière é o café preparado pela avó do escritor. Esse récit d’enfance
traz lembranças descontínuas e incertas que são ao mesmo tempo reveladoras da
formação de um sentimento nacionalista posteriormente abjurado pelo haitiano,
que diz ter nascido como escritor em Montreal. Isso não significa que ele
defenda a francofonia ou a cultura canadenses. "Sou contra fronteiras e a
francofonia representa mais uma, entre muitas."
Como autor migrante,
Laferrière escreveu outro relato autobiográfico pouco convencional, Pays Sans
Chapeau, romance em que ele cruza o rio Styx, ou seja, o rio dos mortos, para
narrar como é a vida do outro lado. É uma parábola sobre a travessia que
empreendeu até chegar aos EUA. Reafirma também a total ausência de nostalgia do
mundo que conheceu no Haiti, exceto pelas boas lembranças da infância, como a
imagem de sua avó na varanda da casa ensolarada e o cheiro do café. Quanto ao
misticismo haitiano, ele não deixou marcas profundas em Laferrière. "Minha
mitologia é a liberdade, e a literatura, nesse sentido, foi generosa por me
oferecer uma oportunidade de viver uma outra vida além da real."
Borges, segundo Laferrière, é
outro exemplo de alguém que se reinventou por meio da literatura, assim como
Bukowski. "Ambos têm um estilo conciso e um gosto particular pelas
metáforas." A análise do procedimento retórico do argentino em comparação
com a sua literatura e a de Bukowski pode parecer chocante, mas o haitiano
insiste que, como Borges, também tomou vidas emprestadas para contar sua história.
"Tenho uma tia que vive me dizendo que eu não escrevo as coisas tais quais
elas acontecem, mas é assim que as vejo e é isso o que importa, afinal, em
literatura."
O que interessa, diz ele, é o
poder subversivo da retórica. "Ao escrever Como Fazer Amor..., pensei
muito em Montaigne, em como poderia mudar a proposição ‘eu te amo’ por ‘eu te
desejo’, pois você pode detestar alguém, mas desejá-lo com igual
intensidade." Laferrière pensava e em loiras que sentiam atração por
homens negros. "Invertendo a lógica do racismo, mudando a equação da força
percebi que era possível escrever uma sátira sobre as diferenças sociais e o
abismo entre as classes sem fazer um discurso político." Seu lado
ensaístico, adianta, só virá no livro que escreve (Notas para Um Jovem Escritor),
conselhos que, aos 59 anos, resolveu dar aos aspirantes a literatos.
O Livro
Como fazer amor com um negro
sem se cansar
(Tradução de Heloisa Moreira
e Constança Vigneron, Editora 34, 152 páginas, 35 reais) Escrito pelo haitiano
Dany Laferrière em 1985, mas inédito no Brasil, causou controvérsia na época de
seu lançamento e quando foi transformado em filme dirigido por Jacques W.
Benoit. Primeiro, por causa do título, mas também pela história, que fala sobre
dois jovens outsiders vivendo em Montreal, no Canadá, nos anos 70. Ambos negros
africanos exilados, um aspirante a escritor que vive várias aventuras amorosas,
e outro que só pensa em dormir, ouvir jazz e recitar o Corão, eles viverão
várias aventuras no verão de uma época de experimentações mil. O livro combina
humor, erotismo, poesia e violência para dar voz a esse diálogo intenso, que
tem como trama central as diferenças entre as culturas de origem dos
personagens.
Fonte: RevistaVeja
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