Por Nathalie Quintane | França
Do
livro Inimigo Rumor
Quer
venha pela frente, quer venha por trás, quando o vento sopra forte, eu me
inclino para a frente.
Quando
caminho, há sempre um de meus pés que desaparece atrás de mim.
Conforme
a parte do corpo que eu coce, produzo um som diferente.
Quando
deslizo uma das mãos para baixo do travesseiro, antes de nele repousar minha
cabeça, obtenho uma camada suplementar.
Com
a mão direita ou com a esquerda, passando por trás do meus ombros, consigo atingir
todos os pontos da superfície de minhas costas.
No
verão, após permanecer sentada na varanda, muitas vezes constato, impresso na
parte posterior de minhas coxas, o desenho da cadeira.
Quanto
mais a poltrona em que me sento for baixa e acolchoada, mais os meus joelhos
ficarão próximos de meu rosto.
Quando
os caracteres impressos são muito pequenos, e as linhas muito cerradas,
acompanho com o dedo as frases que leio em um livro.
Ainda
que meu quarto seja um ambiente absolutamente escuro, fecho os olhos para
dormir.
Quando
subo as mangas do meu pulôver, a dobra do cotovelo as impede de deslizar.
Mesmo
quando olho “atrás de mim”, continuo a ver o que há diante dos meus olhos.
No
momento em que mergulho meus pés na água fria, vejo mais nitidamente o que me
cerca, e meus pensamentos tornam-se mais claros.
Quando
bebo, meu lábio inferior permanece seco.
Parada
sob o sol, graças à posição de meu ombro, posso, de maneira aproximada, saber
que horas são.
Ao
beber um gole de água, atiro rapidamente minha cabeça para trás na hora de
engolir um comprimido.
Observando
uma pessoa sentada, no escuro, frente à tela de um computador ligado, noto que
seu rosto fica azul.
Quando
assopro as velas de um bolo de aniversário, gosto antes de encher as bochechas
de ar.
No
verão, descubro às vezes uma formiga, ou uma mosca, passeando sobre minhas
roupas.
Quando
mordo uma fatia de melão, ela dissimula minha boca.
Se
esfrego os olhos em pleno dia, a seguir pode-se acreditar que acabei de
acordar.
Depois
de tomar um banho, posso escrever meu nome sobre o espelho do banheiro.
Com
um simples movimento de língua, desalojo um pedaço de amendoim preso entre dois
dentes.
Quanto
menos é o objeto que seguro – um prego, por exemplo – mais meu polegar e meu
indicador ficam próximos um do outro.
Do
lado esquerdo do indicador da minha mão direita, próximo à unha, há uma mínima
protuberância, dura, seguida de um pequeno vão: é ali que posiciono a caneta
quando escrevo.
Quando
me ensabôo, as partes pilosas de meu corpo produzem espuma em abundância.
Quando
cruzo as pernas embaixo da mesa, às vezes bato com o joelho.
Avançando
o lábio inferior e soprando forte, ergo a franja de cabelos que cobre minha
testa.
Fechando
meu olho esquerdo (ou direito), e envesgando o outro, consigo ver meu nariz.
Erguendo
o pescoço diante de um espelho e abaixando os olhos, consigo ver debaixo do meu
queixo.
Quando
como ao ar livre, ao vento, uma mecha de cabelos entra, às vezes, em minha boca
aberta.
Com
uma pilha de livros nos braços, subo uma escada sem olhar os degraus.
Posso
produzir um barulho notável se continuo a sugar com o canudinho o líquido que
resta no fundo de um copo.
Quando
a maçaneta da porta fica à minha esquerda, eu puxo a porta; quando fica à
direita, eu empurro a porta.
Olhando
pelo buraco da fechadura, eu vejo sem ser visto, a não ser que haja alguém
atrás de mim.
Percebo
melhor a direção em que seguem as nuvens se paro de andar.
Quando
uma garrafa está virada verticalmente sobre meus lábios, é que estou bebendo
suas últimas gotas.
Mesmo
se lançar uma maçã bem longe, ela acabará por cair.
Quando
como um pão com manteiga, mordo-o e, depois, rasgo-o, em geral, da esquerda
para a direita.
Quando
como uma torrada muito crocante, não ouço tão bem o rádio.
Um
pouco antes de adormecer completamente, tenho às vezes a sensação de descer, de
uma só vez, três andares de elevador.
Há
uma temperatura abaixo da qual não posso falar sem, ao mesmo tempo, produzir
uma nuvem de vapor.
Durante
um beijo, minhas papilas gustativas também entram em ação.
Tradução
Carlito Azevedo