Pior do
que perder a percepção do outro, é perder a conexão consigo mesmo. Tornar-se
incapaz de reconhecer as sensações do próprio corpo e os próprios sentimentos
em relação às coisas e às pessoas. Se não for capaz de reconhecer os
sentimentos e sensações em si mesmo, o que dirá no outro. Falta o sentir,
depois vem o verbo. Parece que a humanidade caminha a passos largos nessa
direção – evitando sentir e não falar.
Agora,
transporte tudo isso para o ambiente organizacional. São muitos os desafios dos
gestores de pessoas. As relações humanas nunca foram simples, porém, com o
advento da “virtualização” as relações dos gestores com a equipe também
precisam de atenção.
Meu
pensamento é que antes que os gestores se entusiasmem com novos
aplicativos e ferramentas eletrônicas, para gestão de pessoas, deve-se
retroceder para o básico, a construção de vínculos. Essa ideia do Princípio
KISS, acrônimo que em inglês que dizer: “Keep
It Simple, Stupid” ou ”keep it
simple and straightforward”, também um trocadilho de “princípio do beijo”
valoriza a simplicidade do projeto e defende que toda a complexidade
desnecessária seja descartada.
Muito
se revela através do bom e velho olho-no-olho, da escuta ativa, da atenção ao
não verbal e à linguagem corporal. Fatalmente são aspectos que se perdem numa
relação virtual e ou digitalizada.
Não
quero fazer nenhuma apologia contra as ferramentas eletrônicas, elas vieram
para ficar, facilitam a vida desde que nós as dominemos e não o contrário.
Percebo as pessoas escravas de seus aparelhos, alguns até adoecem se ficam sem
conexão. Como se estivessem abandonados ou excluídos do universo. Será?
Segundo
o “American Journal of Psychiatry”,
mais que vício, o uso excessivo de internet pode ser considerado distúrbio
mental. “Viciados” podem perder a noção do tempo chegando a esquecer de comer e
dormir. Comportamentos exagerados podem levar ao isolamento social. Quem não
vive sem o aparelho celular também é chamado de nomofóbico. Na Inglaterra, esse termo surgiu para designar o mal
que afeta cerca de 76% dos jovens do país.
A
atenção para a criação de vínculos é importante, mesmo que sejam
virtuais ou a partir deles. Nem sempre as relações são satisfatórias e isso
acontece não só em função de “com quem”, mas também do “como” nos relacionamos
e variam de acordo com a qualidade, a consistência, a constância, o significado
a força.
O
ambiente digital online oferece condições ideais para que as pessoas se
expressem e isso pode trazer oportunidades e ameaças. Há redes mais focadas nas
relações profissionais, visando a exposição das experiências no mercado de
trabalho e a participação de grupos relacionados a tais interesses, o que
tem facilitado muito os processos de recrutamento e seleção e até, em muitos
casos, encurtando o caminho para localizar pessoas que sejam facilitadoras para
aproximar profissionais e ou empresas com interesses afins.
Quanto
às ameaças, a mídia especializada informa: “Cuidado com sua imagem 2.0”.
Empresas de recrutamento e seleção utilizam informações das redes sociais para
analisar perfil dos candidatos. Tudo pode ser utilizado contra você. Comentários
negativos sobre a empresa, vazamento de informações sigilosas, opiniões
desdenhosos sobre líderes e gestores. Demissões decorrentes de postagens
viraram lugar comum. Certamente não é nesse espaço que se pode dizer tudo o que
se pensa.
Há
outras redes em que a proposta é mais social e se vê de tudo. Disseminação de
pensamentos filosóficos, imagens agradáveis, paisagens bucólicas, refeições em
andamento, desabafos, piadas, pensamentos comunitários, compartilhamentos de
ideias e ideais nem sempre praticados por quem os posta. Parece um mundo de
fantasias, sorrisos, festas, viagens. Celebridades anônimas se mostrando para
quem quiser ver. Pode-se até pensar que as pessoas sejam mesmo “janelas
abertas” para o mundo.

Ao meu
olhar, sob os Avatares sorridentes,
parece mais uma tentativa de fuga da realidade, a busca da satisfação imediata,
do ser visto, notado, da relação sem compromisso, do contato sem profundidade,
lazer, para o indivíduo e distração fácil e garantida no ambiente de
trabalho. Por outro lado é enorme o potencial de negócios cibernéticos,
impensáveis há bem pouco tempo, pois é possível monitor tudo através das tantas
ferramentas de informações e inteligência sob inocentes cliques. Sabia que
câmera de vídeo do seu computador pode ser ligada remotamente sem que você
saiba? Que você certamente já conversou com robôs e nem se deu conta? Já
recebeu como resposta a alguma informação postada na internet a seguinte
pergunta: “Você é humano?” Há pesquisas nesse “cyberterreno” de arrepiar.
Mas o
tema do vínculo é desafiador, voltemos a ele, porque de fato, se expor para o
outro, gera diversos sentimentos: medo, ansiedade, angústia, prazer, alegria,
cooperação, cumplicidade, competitividade, inveja, etc. Assim, o ato de se
relacionar ou de criar vínculo implica no exercício de estar atento a si e ao
outro e cuidar dessa relação. O que de fato não acontece nas redes sociais. O
exercício é individual, a pessoa posta o que ela quer sem se preocupar com o
outro. O outro ou outros da sua rede de relacionamento, em muitos casos, é um
desconhecido.
É fato
que em muitas ocasiões é mais fácil falar sobre situações difíceis com
estranho. Isso realmente promove a sensação de alívio, mas no caso virtual a
exposição atinge escalas gigantescas correndo o risco da pessoa sofrer “bulling eletrônico” ou “Cyberbulling”.
Voltando
então para as relações não virtuais, para o simples, o básico, que é a proposta
deste artigo. Como construir vínculos, a base dos relacionamentos humanos? Como
melhorar a comunicação entre as pessoas em todas as esferas?
Não
há milagres, mas pequenos atos podem interferir positivamente na
qualidade dos relacionamentos. Surpreenda-se, não há nada de novo nisso, não se
trata da inovação das comunicações, apenas o básico. Seguem algumas dicas ou sugestões
que acredito poderão fazer diferença:
Olhar e
perceber a pessoa com quem você mantém uma conversa, por mais breve
que seja. O olhar é a maneira mais poderosa de
inclusão e seu contrário também é verdadeiro;
Dirigir-se às outras
pessoas com gentileza, utilizar palavras como “por
favor”, “obrigada”, demonstrando a capacidade de reconhecimento de
um préstimo;
Elogiar com
palavras gentis;
Cumprimentar
as pessoas com quem você convive, nos elevadores, corredores, em salas de
reunião, em casa, os pais, os filhos, os irmãos, os vizinhos.
Respeitar
as diferenças, desenvolver a capacidade empática. As pessoas
são diferentes. Às vezes digo para alguns pais que nãoprecisa
enviar o filho para uma experiência no exterior, mande-o para a casa de um
amigo por uns dias e ele já perceberá as diferenças.
Evitar
o modo “multi e automático” quando iniciar a conversa com
alguém.
Não seja mecânico. Privilegie aquele momento e só aquele
momento. Mantenha o foco naquilo que esta fazendo, principalmente se
envolver outra pessoa.
Escutar
o que o outro está dizendo. Evitar
interromper quem está falando e
aguardar que finalize o raciocínio antes de responder. Evite
julgar o outro e fazer críticas desnecessárias. A
sensibilidade é fundamental.
Por
parecer relativamente simples as pessoas não costumam dar muita atenção para
esse tipo de comentário, entretanto, se vale como estímulo, não somos nada sem
os outros. O ser humano é naturalmente gregário e a vida em sociedade
permite o amplo aprendizado, consigo e com os outros.
Conseguimos
nos desenvolver e melhorar como seres humanos através das relações com o outro.
As pessoas percebem, assim como você, quando alguém está verdadeiramente
interessado no que você diz.
Precisamos
do outro para saber se crescemos, o outro é que nos informa, direta ou
indiretamente, sobre a nossa própria evolução e adequação social, favorecendo o
autoconhecimento.
Assim,
não espere que o outro dê o primeiro passo para começar a agir de maneira mais
gentil e cordial. Talvez no início alguns até achem estranho, mas se o que foi
dito neste artigo fizer sentido para você coloque em prática.